Bebidas zero álcool avançam e abrem espaço para novo consumo
7 de abril de 2026
Redação

Bebidas zero álcool deixaram de ocupar o canto discreto do cardápio e passaram a disputar espaço nas escolhas de jovens consumidores em bares e restaurantes. O movimento aparece no aumento da procura, na coquetelaria sem álcool e em novas ocasiões de consumo ao longo do dia, segundo Willyan Francescon, vice-presidente da Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje).

Dados da IWSR mostram que o mercado de bebidas no e low alcohol cresceu 4% em volume e 6% em valor nos dez principais mercados em 2024. No estudo, a consultoria projetava alta de 9% no volume de produtos sem álcool em 2025. Até 2029, a expectativa é de expansão de 36% na categoria, puxada em parte pelo maior engajamento de consumidores mais jovens.

Ao mesmo tempo, o ambiente de saúde pública ficou mais duro para o álcool. A OMS afirma que não existe consumo de álcool livre de risco e que mesmo níveis baixos podem causar dano. No ano passado, o U.S. Surgeon General, principal autoridade de saúde pública dos Estados Unidos, publicou um alerta oficial que aponta que o consumo de álcool aumenta o risco de pelo menos sete tipos de câncer.

Isso não significa, porém, que o álcool tenha simplesmente saído de cena. No Brasil, a 3ª edição do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em setembro de 2025, mostrou que a proporção de brasileiros que bebem caiu de 47,7% em 2012 para 42,5% em 2023. Ainda assim, entre quem bebe, o consumo segue elevado, com média de 5,3 doses por ocasião entre adultos. 

Willyan diz que o movimento não representa, necessariamente, uma rejeição total ao álcool, mas uma ampliação de escolha. Na leitura dele, o consumidor jovem e conectado ao universo fitness passou a enxergar a bebida sem álcool menos como produto de exceção e mais como alternativa real de consumo.

O que explica o avanço das bebidas zero álcool entre os jovens?

Na avaliação de Willyan, parte da tração vem da combinação entre saúde, estética e experiência. Segundo ele, o consumo de álcool passou a competir mais diretamente com metas de emagrecimento, rotina de treino e busca por bem-estar. Nesse contexto, as bebidas sem álcool ganharam espaço não só por ausência de teor alcoólico, mas por conseguirem oferecer sabor em ocasiões nas quais o consumidor antes escolheria água, refrigerante ou simplesmente nada.

Ele também afirma que a categoria deixou de carregar a imagem de produto inferior. “Hoje não. Ele tem o mesmo padrão e é até mais valorizado”, diz, ao citar o caso de rótulos zero álcool que chegam ao mercado com preço superior ao da versão tradicional.

Mudança já aparece no estoque e no cardápio?

Segundo ele, o que antes ocupava um espaço pequeno de estoque passou a exigir planejamento de giro, exposição e reposição. Em alguns negócios, afirma, o volume de bebidas zero já supera o de itens tradicionais em determinadas categorias.

A mudança, na visão dele, não é só quantitativa. Também altera a forma como o produto é apresentado ao consumidor. Se antes a bebida sem álcool era tratada como concessão para um público específico, hoje ela tende a entrar no mesmo universo de desejo, experiência e valorização visual que antes era quase exclusiva das bebidas alcoólicas.

Um coquetel sem álcool pode aumentar o ticket médio?

Para Willyan, sim. Ele afirma que a coquetelaria sempre foi uma fonte importante de margem para bares e restaurantes e que esse raciocínio pode ser mantido no universo sem álcool, desde que a experiência não perca apelo visual, apresentação e valor percebido.

A oportunidade aparece com mais força fora da noite tradicional. Willyan diz que brunchs, encontros de tarde e experiências mais cedo vêm ganhando força em parte do mercado e podem ampliar o ticket médio em horários que antes tinham consumo mais restrito. Se no almoço o cliente levaria apenas água ou refrigerante, por exemplo, o coquetel sem álcool cria uma nova faixa de consumo.

Na análise dele, esse deslocamento também ajuda a explicar por que a categoria avançou sem depender apenas da lógica de abstinência. O ponto central não é só parar de beber, mas abrir novas ocasiões e novas escolhas.

Qual é o maior risco ao seguir essa tendência?

O principal erro, segundo Francescon, é agir como se a demanda já estivesse plenamente consolidada em qualquer praça. Para ele, o empresário não deve refazer o negócio inteiro de uma vez. O caminho mais seguro é abrir frentes novas, testar formatos e acompanhar a resposta do público antes de ampliar estoque e reposicionar a marca.

Na visão dele, a gestão de prateleira continua sendo decisiva. Produtos zero álcool, bebidas funcionais e novas categorias podem até crescer, mas isso não elimina o risco de compra em excesso, perda de giro e capital parado se a demanda for ruim.

Por isso, a recomendação é expansão gradual. Willyan cita movimentos parecidos em outros segmentos de alimentação, em que negócios abriram cardápios de poke, bowls, saladas e porções menores sem abandonar totalmente a operação original. Para ele, o lojista precisa abrir novas frentes e deixar que a demanda mostre até onde a virada faz sentido.

O que essa mudança sinaliza para o mercado?

Para Willyan, o crescimento das bebidas zero álcool mostra menos uma ruptura total com o consumo tradicional e mais uma reorganização das ocasiões de consumo. Na percepção dele, o álcool continua presente em experiências premium e momentos específicos, enquanto as versões sem álcool ganham espaço no dia a dia, na rotina de trabalho, no almoço, no treino e nas experiências de tarde.

Por isso, diz ele, a oportunidade para o pequeno negócio não está em decretar o fim da bebida alcoólica, mas em acompanhar com atenção um hábito que ainda está em construção. O erro, para ele, é tentar construir o consumo só por modismo. O acerto é perceber a demanda cedo o suficiente para não perder a oportunidade.

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