NB 42K Porto Alegre faz história, mas falhas geram críticas e organização fará mudanças para 2027
15 de julho de 2026
Redação

A edição de 2026 da New Balance 42K Porto Alegre entrou para a história do atletismo brasileiro ao registrar o recorde de uma maratona disputada em solo nacional, reunir mais de 21,5 mil participantes, distribuir uma premiação superior a R$ 1 milhão e contar com a presença do maior maratonista da atualidade, o queniano Eliud Kipchoge. Mas, ao mesmo tempo em que a elite esportiva comemorava marcas históricas, milhares de corredores amadores relataram problemas de organização que dominaram as redes sociais e obrigaram a organizadora a reconhecer as falhas e anunciar mudanças para a próxima edição.

O resultado foi uma prova marcada por dois cenários distintos: um sucesso esportivo internacional e uma experiência operacional bastante contestada por parte dos participantes.

Recordes colocam Porto Alegre no mapa mundial das maratonas

No aspecto esportivo, a NB 42K alcançou o objetivo de consolidar Porto Alegre como uma das provas mais rápidas da América do Sul.

O marroquino Zineddine Ouria venceu a maratona masculina em 2h08min49s, estabelecendo um novo recorde para provas realizadas no Brasil. O compatriota Aziz Ait Ourkia ficou em segundo lugar, seguido pelo queniano Thomas Kibet Maru.

Entre as mulheres, a marroquina Kaoutar Kahhaz venceu com o tempo de 2h32min58s, à frente da etíope Sadiya Awel Shure e da australiana Tara Melissa Palm.

Outro destaque foi o brasileiro Fábio Jesus Correia, estreante na distância dos 42 quilômetros. Ele concluiu a prova em 2h10min43s, tornando-se o brasileiro mais rápido da história em uma maratona disputada no país, superando uma marca que pertencia a Vanderlei Cordeiro de Lima desde 2002.

Marina Richwin foi a melhor brasileira entre as mulheres, terminando na quinta colocação com 2h36min58s.

Eliud Kipchoge atrai atenções

A principal atração da prova foi o bicampeão olímpico Eliud Kipchoge, considerado um dos maiores maratonistas de todos os tempos.

O queniano participou da corrida dentro do projeto Eliud Running World, iniciativa voltada para arrecadar recursos destinados a projetos educacionais e ambientais.

Kipchoge terminou na 12ª colocação, com 2h18min39s, e protagonizou um dos momentos mais emocionantes do evento ao percorrer o alambrado após a chegada para cumprimentar o público e tirar fotos com os fãs.

Também chamou atenção a participação do veterano Francisco, de 93 anos, que completou mais uma maratona e foi bastante celebrado pelos participantes.

Redes sociais expõem problemas de organização

Se a elite comemorava resultados históricos, a experiência dos corredores amadores ganhou outro tom.

Horas após o encerramento da prova, vídeos e relatos publicados nas redes sociais passaram a listar uma série de problemas operacionais.

O vídeo divulgado pelo influenciador Athos Corrêa repercutiu rapidamente ao questionar:

“Quando um evento cresce demais, quem paga o preço? A marca? A organização? Ou as milhares de pessoas que compraram uma experiência e receberam algo muito diferente do que esperavam?”

As críticas se multiplicaram em diferentes plataformas.

Principais reclamações

Entre os problemas mais citados pelos corredores estavam:

  • falhas na sinalização do percurso;
  • atletas sendo direcionados para caminhos errados, inclusive um corredor da elite nos quilômetros finais;
  • mistura de percursos de diferentes distâncias;
  • falta ou má distribuição de pontos de hidratação;
  • filas de até 2h40 para retirada de pertences no guarda-volumes;
  • medalhas se desprendendo das fitas;
  • dificuldade para deixar a área de chegada devido aos acessos bloqueados;
  • posto médico localizado em área de difícil acesso, com lama no trajeto;
  • número insuficiente de staffs;
  • problemas na orientação do trânsito e atuação dos batedores.

Um dos relatos mais compartilhados foi o do corredor Paulo Bezerra, que afirmou ter esperado quase três horas para recuperar seus pertences após concluir a prova.

Outro participante resumiu a situação afirmando que “a alma da corrida era o povo, mas até os staffs pareciam perdidos”.

Reações divididas

Apesar das críticas, parte dos participantes avaliou positivamente alguns aspectos da prova.

Foram elogiados:

  • o kit entregue aos atletas;
  • a presença de uma elite internacional de alto nível;
  • o percurso rápido;
  • a participação de Eliud Kipchoge;
  • a projeção internacional alcançada pelo evento.

Alguns corredores defenderam que os problemas operacionais não diminuem o potencial da maratona.

Em uma das avaliações mais compartilhadas nas redes sociais, um participante afirmou que a prova “tem potencial para ser uma das maiores do Brasil, desde que aprenda com os erros desta edição”.

Prefeitura comemora sucesso esportivo

Enquanto as críticas ganhavam espaço entre os corredores, a Prefeitura de Porto Alegre destacou os impactos positivos do evento.

O prefeito Sebastião Melo, que também participou da corrida, afirmou que a cidade reforçou sua posição como destino esportivo.

Segundo ele, Porto Alegre recebeu milhares de visitantes e consolidou sua imagem como “capital das maratonas”.

O secretário municipal de Esporte e Lazer, Lucas Siqueira, destacou que o recorde brasileiro, a presença de atletas internacionais e a participação de Eliud Kipchoge colocam definitivamente a capital gaúcha entre os principais palcos das corridas de rua.

Organizadora reconhece falhas

Diante da repercussão negativa, a Run Sports, responsável pela organização da prova, divulgou nota oficial reconhecendo os problemas operacionais.

A empresa afirmou lamentar os transtornos, informou que todos os episódios estão sendo analisados e anunciou mudanças estruturais para a edição de 2027.

Entre as principais medidas anunciadas estão:

  • largada e chegada dos 42 km no mesmo local das demais distâncias;
  • divisão do evento em dois dias, separando as provas curtas da maratona;
  • reforço no número de staffs;
  • melhoria da sinalização dos percursos;
  • criação de um canal permanente de ouvidoria para receber sugestões dos corredores.

Segundo a organizadora, o objetivo é oferecer uma experiência compatível com os padrões da prova nas próximas edições.

Um alerta para o mercado das corridas

A edição de 2026 da NB 42K Porto Alegre deixa um recado importante para o mercado de eventos esportivos.

Os recordes, a presença de grandes estrelas, a premiação milionária e a visibilidade internacional consolidaram a prova entre as principais maratonas do país.

Por outro lado, os relatos de problemas logísticos evidenciaram que o crescimento acelerado das corridas de rua exige investimentos proporcionais em infraestrutura, planejamento e atendimento aos milhares de corredores amadores, que representam a maior parte dos inscritos e financiam esses eventos.

O desafio para as próximas edições será equilibrar o alto nível técnico da elite com uma experiência segura, organizada e eficiente para todos os participantes. Somente assim uma prova poderá ser lembrada não apenas pelos recordes, mas também pela qualidade da experiência oferecida a quem cruza a linha de largada e de chegada.

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